brasília:
anotações para orientar um visitante da cidade
matheus gorovi - gorovi/maass arquitetos associados
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Os visitantes e turistas que aqui chegarem terão oportunidade de apreciar
Brasília e compreender as razões que levaram a UNESCO, ao promover
o tombamento, reconhecer e outorgar a qualificação de patrimônio
histórico e cultural da humanidade.
A disposição físico-espacial proposta objetiva o essencial:
um desenho capaz de articular a dupla dimensão: de cidade-capital,
a civitas, expressão da dimensão social e política da
cidadania; e também a urbes, suporte ambiental das atividades inerentes
à vida urbana: morar, trabalhar, conviver, circular - conforme preconiza
a carta de Atenas publicada por Le Corbusier em 1941 - "As chaves do
urbanismo estão nas quatro funções: habitar, trabalhar,
recrear-se (nas horas livres), circular".
Em resumo, espelhar as prerrogativas do ser enquanto cidadão e habitante.
Lúcio Costa, o urbanista da cidade, expressa nos seguintes termos os
critérios por ele adotados:
Princípios da estrutura urbana
Brasília foi concebida precisamente para o homem e isto em função
de três escalas diferentes, porque a chamada escala humana é
coisa relativa. O italiano da Renascença, por exemplo, se sentiria
diminuído se a porta de sua casa tivesse menos de cinco metros de altura.
Assim, é o jogo de três escalas que vai caracterizar e dar sentido
a Brasília quando a cidade tomar verdadeiramente pé.
A cidade foi concebida em função de três escalas. A ela
se acresce uma Quarta, pois, no fundo, as três situações,
como os Três Mosqueteiros, são quatro: a escala coletiva ou monumental,
a escala cotidiana ou residencial, a escala concentrada ou gregária,
e a escala bucólica. O jogo dessas três escalas é que
lhe dará o caráter próprio definitivo.
B) Intenções que orientaram as disposições arquitetônicas
de cada escala, em decorrência do postulado acima e das diferenças
de funções
Na primeira parte, a intenção arquitetônica é de
severa dignidade, prevalecendo, em consequência, o caráter monumental;
a segunda, depois do enquadramento arborizado, terá feição
recolhida e intima, conquanto mantenha, por suas proporções
e tratamento arquitetônico, a compostura urbana que se impõe;
na terceira, o espaço foi deliberadamente concentrado e a atmosfera
será gregária e acolhedora.
A escala residencial ou cotidiana nas áreas de vizinhança constituídas
de superquadras que, embora autônomas, se encadeiam umas às outras,
permitindo às pessoas encontrar-se, conversar, conviver e compreender-se.
A escala dita monumental, em que o homem adquire dimensão coletiva;
a expressão urbanística desse novo conceito de nobreza - que
não se opõe ao individual, mas o acrescenta e o enriquece -
traduz-se no jogo mais livre do espaço e numa comodulação
arquitetônica maior. Se a Praça dos Três Poderes corresponde,
em termos de espaço e por intenção, a Versalhes, a majestade
é outra, é o povo - é o Versalhes do Povo.
A escala gregária, onde as dimensões e o espaço são
deliberadamente reduzidos e concentrados a fim de criar clima propício
ao agrupamento, tanto no sentido exterior da tradição mediterrânea
como no sentido nórdico do convívio interior.
Especificidades Físico-espaciais de cada uma das escalas
Escala monumental, coletiva ou simbólica
Quanto à parte administrativa e coletiva da cidade, em seu eixo monumental,
caracteriza-se por diferentes níveis estabelecidos em sucessivos patamares:
o terreno agreste;
o terrapleno triangular onde se assentam os três poderes autônomos
da democracia, espaço tratado com a largueza e o apuro de um "Versalhes
do Povo";
a esplanada dos ministérios e o centro cultural;
a grande plataforma no cruzamento em três níveis dos dois eixos
da cidade e onde será construído o centro urbano;
o terreiro da torre de TV.
Este escalonamento em platôs sucessivos decorre dos movimentos de terra
impostos pelo extenso corte em níveis diferentes, e assim reincorpora
ao urbanismo contemporâneo, uma tradição milenar.
Escala gregária ou concentrada
O centro de aglomeração urbana foi concebido deliberadamente
para fazer contraponto aos espaços livres das "superquadras"
residenciais, ao longo do eixo rodoviário.
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