brasília:
anotações para orientar um visitante da cidade
matheus gorovi - gorovi/maass arquitetos associados
*
(continuação)
As áreas destinadas a esta terceira escala são contíguas
à plataforma, onde se cruzam os eixos da cidade; compõem-se
de dois enquadramentos edificados de 250 por 100 metros e cinco andares cada
um destinados a escritórios para profissionais liberais, representações
comerciais, etc., com cafés e restaurantes no rés do chão
ligados entre si por galerias e terraços em contato direto com a plataforma
e com vista livre para a Esplanada dos Ministérios. No interior desses
enquadramentos estão os teatros, cinemas e pequenas lojas, galerias
e praças privativas de pedestres; conjunto esse servido por um duplo
sistema de ruelas e pracinhas para pedrestres, acessíveis ao tráfego
de automóveis e ônibus pela referida plataforma e aos caminhões
de serviço pelo extremo oposto, em nível inferior.
Este foco urbano de congestão foi deliberadamente concebido para fazer
contraponto aos espaços desafogados e serenos das superquadras residenciais
ao longo do eixo rodoviário.
Escala residencial ou cotidiana
Nas superquadras restringem-se apenas à obrigatoriedade dos pilotis
e ao gabarito de seis pavimentos, ficando, portanto, as crianças que
brincam ao alcance da voz, o que constitui para humanizar essas áreas
residenciais apesar do vulto das edificações (...) o que ainda
falta e me exaspera são as cortinas verdes compostas por árvores
de copa pesada, previstas para dar aconchego e definir espacialmente cada
quadra.
Escala bucólica
Decorreu da decisão de construir a cidade de modo recuado; evitou-se
a localização dos bairros residenciais na orla da lagoa, a fim
de preservá-la intacta com bosques e campos de feição
naturalista e rústica para os passeios e amenidades bucólicas
de toda a população urbana. Apenas os clubes esportivos, os
restaurantes, os lugares de recreio, os balneários e núcleos
de pesca poderão chegar à beira d'água.
Como estas escalas se articulam por meio de eixos estruturais que simultaneamente
servem de suporte e conferem unidade ao conjunto
Brasília compreende, estruturalmente, três partes devidamente
entrosadas: o eixo monumental, assim chamado porque reúne os edifícios
destinados ao governo e à administração; o eixo rodoviário-residencial,
que conduz ao centro da cidade e ao longo do qual estão dispostas as
quadras residenciais; a criação destas quadras, que se queriam
emolduradas por uma densa faixa verde de árvores de porte, objetivou,
inicialmente, articular a escala residencial à monumental, a fim de
garantir a unidade da estrutura urbana; e finalmente, sobre o cruzamentos
dos eixos, a plataforma, onde foram situados, em níveis diferentes,
o centro social e de diversões e a estação rodoviária
interurbana, conjunto esse articulado aos setores comercial e bancário,
ao setor cultural e ao setor destinado às competições
esportivas (estádio e hipódromo).
em resumo
o procedimento pode assim ser resumido: pressupostas as escalas urbanas e
seu caráter, determinam-se estruturas físico-espaciais capazes
de conter apropriadamente aquelas escalas; estes suportes estruturais são
em seguida articulados instaurando uma totalidade - a unidade necessária
à diversidade inicial. Lúcio Costa ao definir o traçado
urbano como dois eixos que se cruzam, sintetiza este percurso.
Na diversidade de escalas a cidade comparece como expressão da possibilidade
de conciliação de uma dupla condição humana: do
ser enquanto ser individual e coletivo, pois:
A crença latente - já agora esquecida - num mundo mais humano
e mais justo voltará a prevalecer, e as proposições de
Le Corbusier visando sempre integrar o coletivo em grande escala e o individual
irredutível, ainda terão vez.
Os interesses do homem como indivíduo nem sempre coincidem com os interesses
desse mesmo homem como ser coletivo; cabe, então, ao urbanista procurar
resolver, na medida do possível, esta contradição fundamental.
* jornal
do arquiteto iab/df-julho/96